Palavras Cruzadas
Guti - O Anjo Espanhol da Piedade

Tendo recentemente abraçado um novo projeto profissional, no estrangeiro, o Espanhol continua bem presente na memória recente da música Hip-hop em Almada. A P´ALMADA publica uma entrevista original realizada no Ponto de Encontro, em Dezembro de 2012.








"(...) Termos ganho o concurso deu-me currículo e isso abriu-me outras portas..."

"(...) A minha luta não só no hip-hop mas na música e na vida é uma questão de proximidade, é a de acalmar as coisas e fazer as pessoas mais felizes."

 
 
Desde quando te lembras da necessidade de passar o que sentes para a música, tornando-te verdadeiramente ativo no rap?

Por volta de 1994, deslumbrava-me com os Run DMC na MTV, vestidos de padre… e mais tarde, a Lauryn Hill a cantar no filme “Do Cabaret para o Convento 2”, aproximou-me ainda mais deste estilo de música. Em 2000, na Anselmo, já ouvia os Mind da Gap, Chullage, Sam the kid mas após um concerto dos M.A.C. no Ponto de Encontro que comecei a querer fazer as minhas próprias rimas.

Os La Dupla venceram o 5º Concurso de Música Moderna e atuaram nas Casas da Juventude. De que modo esse percurso foi importante para a tua formação enquanto artista?

Deram-me estaleca… Quando comecei a sair de Almada, já sabia de fazer as coisas, já tinha aquela experiência de palco que noutras cidades não existe porque não há tanto incentivo às bandas como há nas casas da juventude. Depois, termos ganho o concurso deu-me currículo e isso abriu-me outras portas... Foi uma das razões pelas quais a banda teve credibilidade, posteriormente. Tinha 19 anos e foi muito importante para mim...

 
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Como surgiu a oportunidade de participares no Festival “South By Southwest”, no Texas, em Março deste ano? Como foi conhecer e emparelhar com alguns dos teus ídolos, subindo a palcos épicos como o do “Trinity Internacional Hip Hop Festival”?

Em 2007, quando o Sam the Kid foi ao Trinity, mandei um e-mail para a organização a apresentar os La Dupla. Curiosamente, responderam-me favoravelmente e em português... A dica ficou no ar até que me ligaram em 2011… os La Dupla tinham acabado mas desafiaram-me a atuar a solo... Depois desse convite, perguntaram-me se queria fazer mais concertos… Já sabia o que era o "South By Southwest", por causa da participação do David Fonseca e dos Dead Combo e por isso foi fantástico quando confirmaram a minha presença.

"Descodificando Sam The Kid" foi o primeiro trabalho da tua carreira a solo. Foi difícil trabalhar a solo?

É um processo ambíguo. Em La Dupla, sempre tive as rédeas do projeto mas o grande desafio foi fazer uma música inteira sozinho, mostrar a toda a gente que sabia escrever, sabia rimar, não melhor do que os outros mas dentro do meu estilo.

 
 
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Porque decidiste pegar em beats do Sam The Kid e usá-los neste trabalho?

Este projeto é produzido pelo Sam the Kid mas não em exclusivo para mim. Eram instrumentais originais que ele carregou na internet e que eu decidi usar. “Descodificando Sam the Kid” é a minha interpretação sobre esses instrumentais. Quando tinha o trabalho a meio gás, mostrei-lhe. Ele gostou e deu-me o aval para seguir em frente...

 
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Existe a ideia de que o Hip-hop anda a par com a marginalidade, alheando-se da sociedade em que vive. Por outro lado, há quem o defenda como meio privilegiado para a intervenção social. Onde te situas?

Não considero um preconceito quando se diz que o Hip-hop é das ruas porque é daí que vem o poder e a força do rap. Com a internet é fácil amplificar esse poder das ruas e é difícil perceber de que ruas é que realmente vem, portanto, é uma questão ambígua. A questão do rap como meio para a revolução é hoje em dia muito privilegiada mas acho que o movimento tem muitas vertentes por onde ir. Onde realmente me situo, apesar de me identificar muito com a revolução e com os movimentos da rua, é no amor às pessoas. Não falo de fazer músicas de amor para rádio, falo do amor ao próximo – se há tanta maldade neste mundo porque é que não pode haver alguém a tentar mudar isso? Aí sou um bocado arrogante e digo que sou uma dessas pessoas que pode fazer a diferença, porque me considero uma pessoa de bom coração, bondosa. E acredito que a maldade é circunstancial, então a minha luta não só no Hip-hop mas na música e na vida é uma questão de proximidade, é a de acalmar as coisas e fazer as pessoas mais felizes. No fundo, a minha luta é a busca pela felicidade.

 
 
Onde está o amor, onde está o rap? De certa forma, o teu trabalho retrata uma crise de valores na cultura urbana, reclamando por um regresso as origens através do amor aos nossos, à família, aos amigos, à nossa cultura e sociedade. Que mensagem deixará aos mais jovens?

Importante é perceber quem somos e obviamente que, sendo adolescentes, não conseguimos perceber isso totalmente. Mas é importante tentar perceber aquilo que nós achamos que é certo para nós, sermos conscientes naquilo que fazemos. É preciso potenciar o nosso “eu” por um bem maior, quanto mais trabalhamos o nosso “eu” mais nos conhecemos e mais podemos dar aos outros e… quanto mais damos aos outros, mais recebemos.

A quem gostavas de dar uma... P´ALMADA, se tivesses oportunidade e não existisse castigo?

À minha namorada, para ela me conhecer melhor. Epá, tramaste-me com essa (risos). Isto mostra que eu não ando a ler a revista...

 
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Palavras Cruzadas - Guti

Descarrega "Descodificando Sam the Kid", o trabalho a solo de Guti Angel, em www.gutiangel.com.