TNT - Na pele do Júri

Em 2005, com os M.A.C., fui vencedor da 3ª edição e devo dizer que foi um forte empurrão na nossa “carreira”, principalmente por termos percebido que a nossa música talvez pudesse chegar um pouco mais além, ao ponto de agradar a um júri que pouco ou nada tinha a ver com o nosso estilo musical. Passados sete anos, dei por mim a interpretar esse mesmo papel, o de decidir quem ficará nos três primeiros lugares, sendo que para tal apenas poderia contar com a minha cultura musical, sabendo não deter a experiência musical dos meus colegas de júri, o Bruno Neves e o Pedro Quaresma. Tentando dar o meu melhor, certo que iria ser uma ótima experiência, desloquei-me até ao Centro Cultural Juvenil de Sto. Amaro, vulgo Casa Amarela e dei entrada no meu mundo: o dos palcos e das luzes, dos amplificadores e dos microfones, dos alinhamentos escritos a marcador numa folha A4. É disto que eu gosto!

Independentemente do estilo musical que oiço ou pratico, a música, quando é boa, ultrapassa todas as barreiras, divisões e segmentos que criamos para poder distinguir o que apenas deveria ser catalogado como bom ou mau, ponto. Por isso não compreendo a ausência de público a uma sexta-feira à noite, num

 
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espetáculo gratuito e com boas condições técnicas, cujos primeiros artistas foram rappers, com uma linguagem atual e cativante.

Alma, MC da margem sul, nova escola de Almada, impressionou-me pela garra e presença em palco. Vê-se a ambição genuína neste rapper que, apesar de jovem, rima com raiva sobre a vida e que ela lhe tem dado. Rimar não é só cuspir versos em cima de uma batida, é dar corpo às palavras, dar-lhes sentido e orientação, e o Alma cantou para vinte pessoas como se estivesse a cantar para uma multidão, sem medos. Acompanhado por DJ Apu nos pratos, que complementou a atuação com scratch perfeito e eficaz, este MC provou que tem a atitude necessária para vingar na música e ter um futuro promissor.

Maximus, a jogar em casa, foi o segundo MC a subir ao palco. Este rapper do Miratejo conta com alguns anos de experiência e várias parcerias com MC’s de renome no panorama do hip-hop nacional. Mostrou alguns temas do seu novo projeto, assim como organização e estrutura na apresentação das músicas. Desde as sonoridades mais dançáveis, até ao rap de rua, abrangendo um espectro vasto de estilos, sempre sobre o ritmo do bombo e da tarola, que tornam o seu projeto ainda mais interessante e apelativo.
 
 
Tento sempre ser construtivo nas críticas que faço, pois mais do que apontar, é importante mostrar soluções e dar opiniões. Quem tem mente aberta, aceita-as de boa vontade. E é por isso que me abstenho de comentar o concerto de Fenómeno Eighty Four que, por inexperiência ou falta de orientação, optou por cantar por cima de vozes já gravadas, dificultando a avaliação do júri por não sabermos até que ponto o que ouvimos foi cantado ao vivo ou já estava gravado. Fazer rap não é fácil, interpretar ainda menos, mas há que continuar a tentar, sem “bengalas”.

Eis senão que entra em palco o projeto Mel. Ao ver o vídeo de apresentação - uma ótima iniciativa e a repetir, talvez com um pano de fundo diferente e uma edição mais elaborada -, fiquei curioso, pois nele a vocalista - Melanie Spencer - referia as sonoridades r&b e funk que compunham a música da banda. Mas a minha surpresa foi outra e totalmente focada na voz da vocalista, que conseguiu cativar o pouco público presente e transmitir a segurança e simpatia necessária para uma interpretação irrepreensível. Foi a melhor voz de todo o concurso e não querendo colocar os restantes músicos em segundo plano, fez com que valesse a pena ouvir os temas apresentados.
 
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Sou da opinião que sob um enquadramento musical mais atual e elaborado, ainda que mantendo as mesmas influências soul, r&b e funk, Mel pode vir a dar muito que falar. Dei assim por terminada a minha primeira noite de avaliação, com algum alívio no sentido em que a pior coisa que pode acontecer a um músico é tocar para uma sala vazia e, por solidariedade, sofri com isso. Mas a esperança nunca morre e guardei algumas expectativas para o dia seguinte, até por desafio pessoal, pois as guitarras pesadas nunca foram o meu forte e sempre quis saber se conseguia apreciar estilos mais alternativos de rock.
 
 
Devo dizer que a experiência foi um sucesso. No sábado, 20 de outubro, as portas da Casa Amarela abriram novamente para a segunda noite do 8.º Concurso de Música Moderna de Almada, desta vez com a atuação de Glass in the Park, Extra-Pepperoni e Mendigos e Ladrões. A primeira banda não me inspirou muita confiança inicialmente. Muito novos, visuais alternativos, menções a Paramore - não querendo ofender os fãs desta banda, gostos são gostos... Mas nestas coisas da música nunca se deve cuspir para o ar. A vocalista Rita Sedas é um diamante em bruto e nem o baixo volume do microfone a impediu de pôr o público em sentido, no bom sentido. A meio do concerto a banda estava em casa, distribuindo confiança e boa música. O Bruno, a Inês e o Diogo não ficaram atrás da vocalista pois foram eles o suporte para a excelente atuação dos Glass in the Park. Temos banda!

Quanto aos Extra-Pepperoni, num estilo mais light, pop-rock easy listening, estão também no bom caminho, com algumas arestas a limar. A nível musical, a definição de uma trajetória a seguir é sempre complicada, especialmente hoje em dia.
 
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Podemos optar por um estilo específico, com mais dificuldades em chegar ao mainstream ou por um estilo mais abrangente, correndo o risco de soar como milhares de outras bandas. É o caso, mas não num sentido negativo. Acho que os Extra-Pepperoni se estão a encontrar, até porque a formação atual é recente e estão ainda muito presos às suas influências.

Mas gostava de voltar a ver a Nádia, o David e o Pedro num futuro próximo, com mais um elemento e com a mesma vontade de tocar com que os vi no palco. Têm na voz da Nádia e na cumplicidade dos dois guitarristas, um forte trunfo a aproveitar.

 
 
Posto isto, chegámos aos Mendigos e Ladrões. É inevitável falar desta banda com entusiasmo. O meu irmão já me tinha dito: “tens de ver esses gajos!” e quando ele diz estas coisas normalmente não se engana.



Foram a melhor banda do Concurso, dei por mim a abanar a cabeça com a combinação guitarra-baixo-bateria, com letras em português e influência de sonoridades portuguesas, num caldeirão de misturas do qual saem os Mendigos e Ladrões. Fresh é a palavra que utilizo para descrever as bandas que curto e, aqui, assenta como uma luva!
 
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O Nuno Ramos é o verdadeiro frontman, à vontade e sem pretensiosismo, dando espaço ao Diogo no baixo e à atitude forte do Gomes na bateria. Uma tripla que promete, que vou acompanhar e dos quais já sou um fã. Eles sabem o que querem e, como tal, arrecadaram o primeiro lugar. Não sendo eu um ouvinte assíduo de rock, rendi-me às evidências e concordei de imediato com esta decisão.

Para acabar a noite, vesti a pele de TNT e subi ao palco com os M.A.C. para uma pequena atuação de trinta minutos, a convite da Câmara Municipal de Almada. É sempre um prazer tocar em casa e senti-me bem na companhia de amigos, conhecidos e restante público. Tocámos temas do nosso novo álbum “Muito A Contar”.

É tão importante tocar dentro como fora da nossa terra e são estes desafios que nos fazem crescer como músicos e ambicionar mais. Hoje em dia o rap tem mais aceitação de uma forma geral e as pessoas já não encaram este estilo musical com desconfiança e preconceito, como acontecia quando começámos, em 1997. O facto de podermos encabeçar um cartaz composto por bandas de rock e ainda assim o espetáculo funcionar “normalmente” é a prova de como as coisas evoluem e de como o público muda.
 
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Para terminar e sem grandes rodeios, deixo um apelo às bandas e à organização, para que este concurso tenha muitas edições com igual sucesso, é necessário um esforço maior de todas as partes para participar, ajudar e divulgar uma iniciativa que é de louvar em todos os sentidos.

Acredito que Almada, pelo seu historial musical e de associativismo, tem provas mais que dadas de potencial artístico e não é por acaso que, aquela que foi uma das maiores bandas da música moderna portuguesa - os Da Weasel - nasceu em Almada e conquistou o país. Como esta, há centenas de bandas, espalhadas pelo Concelho, à espera de uma oportunidade que poderá passar pelo Concurso de Música Moderna de Almada. Participem!

Apagadas as luzes e arrumados os amplificadores, baterias e guitarras, com a sala praticamente vazia, pensei como esta experiência tinha superado as minhas expectativas. Falei com algumas das bandas ainda presentes e senti motivação, independentemente de terem ficado ou não nos três primeiros lugares. Todos ganharam e, com certeza, alguns voltarão a tentar para o ano… Eu lá estarei para vê-los!